A situação envolvendo a vaga no grid da Fórmula E ocupada atualmente pela Citroën se transformou em um dos temas mais delicados e controversos do paddock. O controle da licença pela própria organização da categoria elétrica, aliado a planos recentes de aquisição ligados à Liberty Global — acionista majoritária do campeonato —, gerou preocupação aberta entre equipes e montadoras sobre possíveis conflitos de interesse e escancarou um cenário complexo que envolve propriedade, gestão e o futuro da operação.
A raiz da polêmica está na situação do Monaco Sports Group (MSG), empresa detentora original da licença. Criada em 2021 a partir da antiga Venturi, a estrutura passou por dificuldades financeiras e comerciais ao longo da era Gen3, especialmente após a parceria com a Stellantis que batizou a equipe de Maserati — modelo que, segundo a companhia, dificultou a atração de patrocinadores externos.
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Com isso, o MSG entrou em grave crise financeira, e os antigos proprietários se afastaram da equipe no fim de 2024. Após uma tentativa fracassada de venda — um potencial comprador não cumpriu compromissos financeiros necessários para concluir a transação já acertada —, a licença retornou à Formula E Operations (FEO) — empresa detentora dos direitos comerciais do campeonato — para garantir a continuidade do time no grid.
Desde então, o MSG passou a operar praticamente como apenas uma fachada do ponto de vista comercial, sem estrutura ativa de marketing ou crescimento — e com parte das despesas sob responsabilidade indireta da própria Fórmula E. O acordo com a Stellantis para manter as atividades em pista seguiu de pé, com a montadora neerlandesa optando por substituir a Maserati pela Citroën a partir da temporada 2025/26.

Para tentar reorganizar o projeto e atrair investidores, a categoria iniciou um processo de reestruturação que ganhou novo capítulo com a nomeação de Beth Paretta como diretora-geral da equipe. A escolha, no entanto, teve efeito contrário ao desejado e intensificou a polêmica, segundo informações do portal inglês The Race.
Paretta vinha atuando até recentemente como vice-presidente esportiva da própria FEO — cargo que deixou oficialmente apenas dias antes de assumir a nova função. Embora a Fórmula E sustente que ela já não trabalhava diretamente em projetos esportivos desde o fim de 2025, a proximidade entre o período em que desempenhou as funções gerou desconforto no paddock, especialmente porque a missão é justamente preparar a equipe para receber investimentos ou ser vendida.
O cenário se tornou ainda mais sensível após o fracasso de um plano anterior, considerado favorito pela categoria. A ideia previa que um braço do Liberty Global, por meio de uma empresa de propósito específico, assumisse o MSG, tornando-se proprietária da vaga no grid. O projeto chegou a avançar, com negociações envolvendo a Stellantis e propostas de expansão comercial, mas acabou abandonado diante da forte reação de equipes e montadoras, que enxergaram risco claro.
“Houve muito ruído no sistema. Algumas pessoas questionaram se o plano não criaria um conflito de interesses. No fim, o Liberty não quis gerar esse barulho negativo num momento importante para a categoria”, disse o CEO da Fórmula E Jeff Dodds ao The Race.

A preocupação das equipes não é apenas teórica. O fato de a organização do campeonato — ou empresas diretamente ligadas a ela — controlar uma equipe levanta dúvidas sobre transparência, igualdade comercial e governança. Roger Griffiths, chefe da Andretti e presidente da Associação de Equipes, foi direto ao abordar o tema e chegou a comparar a situação atual àquela vivida na Indy — onde o dono do campeonato é Roger Penske, proprietário da equipe Penske.
“Estamos preocupados com a perspectiva de o campeonato possuir uma equipe. Já vimos situações assim em outras categorias que criaram suspeitas. Queremos garantir que tudo seja feito corretamente”, afirmou.
“Existe uma grande diferença entre Fórmula E e Indy, por exemplo, que é a FIA, um órgão independente que rege os regulamentos esportivos, técnicos e financeiros. Mas essa situação levanta suspeita, então é natural que a primeira impressão sempre seja negativa, mesmo que depois fique claro que não é tão ruim quanto pareça”, seguiu.
Ainda que a presença da Federação Internacional de Automobilismo (FIA) como órgão regulador independente seja apontada como fator de equilíbrio, o desconforto permanece. Tommaso Volpe, chefe da Nissan, reforçou a visão exposta por Griffiths e defendeu que o ideal é a entrada de um novo investidor externo, que fortaleça o grid e aumente o valor das franquias.

“Não temos razões para acreditar que existe um problema, mas seria bom ter transparência total. Todos negociamos acordos comerciais com a Fórmula E e é natural que cada um busque o melhor contrato possível nas conversas. Precisamos acreditar que a situação é a mesma com a Citroën”, disse.
“É uma situação arriscada, então esperamos que a equipe seja vendida o mais rápido possível para alguém disposto a investir no campeonato e que não seja um stakeholder atual. Isso aumentaria o número de empresas envolvidas e comprometidas com o crescimento do campeonato”, completou.
O caso expôs tensões internas profundas. A decisão de priorizar a sobrevivência do MSG no passado teve impacto direto em outros projetos, como o encerramento da operação da McLaren. O time papaia decidiu cessar o investimento para focar esforços no Mundial de Endurance (WEC). Ian James, que comandava a operação desde a época em que tinha apoio da Mercedes, tentou encontrar solução para manter a equipe no grid e chegou a buscar um acordo com a Stellantis, mas o grupo neerlandês priorizou o negócio com a FEO — o que forçou o encerramento das atividades da estrutura.
Para James, o problema vai além da redução do grid da categoria. A questão gira em torno da opção em priorizar um acordo para salvar a operação sob comando da FEO — caso que exemplifica de maneira prática o conflito de interesses temido pelas outras equipes.

“Tenho uma opinião sobre o que se passou, mas é passado, já acabou. Não há nada que possa ser feito. Mas a situação é mais complicada do que gostaríamos? Provavelmente. Precisamos encontrar uma boa alternativa para manter as equipes? Sim”, disse.
“Estamos mais fortes com o número atual de equipes ao invés de ter 12? Queremos ver um time desaparecer do grid tendo um caminho para salvá-la? A resposta é não, o objetivo é manter todos no campeonato”, completou.
Esse último ponto, aliás, é consenso. Apesar das críticas em relação à situação atual, há entendimento de que a Fórmula E não pode perder equipes em um momento estratégico, às vésperas da introdução da Gen4. Com dez times atualmente e as entradas já confirmadas da Opel e de uma segunda equipe oficial da Porsche na temporada 2026/27, manter a base do grid é visto como essencial para o crescimento da categoria.
Nesse contexto, o papel de Paretta será central. Além de buscar investidores, terá de reorganizar a estrutura operacional — incluindo a possível transferência de parte dos funcionários de Mônaco para a base da Stellantis em Satory, na França — e tornar o projeto novamente atrativo no mercado. Enquanto isso, a equipe segue competindo com a marca da Citroën no início da era Gen4.

“A realidade é que essa equipe não tem nenhum foco comercial e ninguém nesse papel há, pelo menos, 14 meses. Ficou estagnada, não conseguiu crescer, atrair novos parceiros e nem se reestruturar, cuidar dos aspectos essenciais para a viabilidade da empresa no dia a dia. A ideia é reestruturar a equipe, torná-la um negócio vivo, dinâmico e saudável para atrair interessados para uma possível venda”, afirmou Paretta.
“Na próxima temporada seguimos com a Citroën como parceira técnica e precisamos realocar parte da equipe técnica para a França, mas estamos atrasados. Estamos em um momento crítico agora. Precisamos fazer essa mudança e, para isso, temos de estabelecer uma subsidiária francesa onde as pessoas ficarão alocadas. O tempo está se esgotando para que tudo isso seja concluído”, explicou.
A Fórmula E tem folga de uma semana antes da próxima etapa, a rodada dupla do eP de Mônaco, entre os dias 15 e 17 de maio. A categoria elétrica corre pelo tradicional circuito da Fórmula 1, montado nas ruas de Monte Carlo. Emissora oficial no Brasil, o GRANDE PRÊMIO transmite todas as atividades de pista AO VIVO e COM IMAGENS no YouTube e na GPTV.
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Fonte original: Grande Prêmio