O futebol nos habituou, por um certo tempo, a ver jogos entre times de elite do futebol mundial transformados numa luta para se estabelecer com a posse de bola. Numa era dominada pela profunda influência do chamado Jogo de Posição, equipes dominantes acumulavam passes, porque a busca por controle era palavra de ordem para muitos treinadores: times tentavam conservar a bola, atacar de forma organizada para reduzir danos caso sofressem um contragolpe.
Nada disso deixou de valer, porque a linha do tempo do futebol, ao longo da história, não costuma eliminar estratégias: apenas acrescenta novas ferramentas ao seu cardápio. E o frenético Paris Saint-Germain 5 x 4 Bayern de Munique desta terça-feira foi um exemplar perfeito de um tipo de jogo cada vez mais comum nos grandes choques entre superpotências.
Neste tipo de futebol, as palavras de ordem são outras: rotações, dribles, velocidade. O jogo chega a dar vertigem, porque tenta-se chegar ao gol da forma mais rápida possível, numa constante ida e volta de menos passes e mais aceleração. E qual a razão da guinada?
PSG 5 x 4 Bayern de Munique | Melhores Momentos | Semifinal | Champions League 2025/26
Quase tudo o que vimos no Parc des Princes se origina do uso cada vez mais comum das marcações por pressão individual, transformando o jogo em dez duelos espalhados pelo campo, envolvendo cada um dos jogadores de linha. Algo que PSG e Bayern levam às últimas consequências. Os times assumem todo tipo de risco com uma forma agressiva de defender, buscando os rivais onde eles estiverem. Pacho poderia seguir Harry Kane a qualquer canto, assim como Tah o faria com Dembélé, apenas para citar dois exemplos. Com a bola, ninguém respira, há sempre um rival direto travando um duelo pessoal.
Não é que PSG e Bayern tenham decretado o fim de uma era e o começo de outra. É que são tão bons e tão corajosos no que fazem que elevam a prática deste tipo de futebol a outro nível. As marcações individuais vêm crescendo gradativamente em anos recentes, assim como alguns antídotos contra elas. Um deles, as rotações de jogadores, mudando de posição sem que o time perca sua estrutura, seu desenho. E a ideia é tirar os defensores rivais de lugar, já que a marcação é feita por perseguições.
O outro tem a ver com um tema recorrente de debate: o drible, a liberdade para ousar. Sempre houve dribladores, mas havia uma aposta que o futebol cada vez mais sistematizado iria podar o improviso. E em poucos cenários quanto este Bayern x PSG foi tão necessário ter um driblador, um homem capaz de vencer duelos. E lá estavam Olise, Musiala, Luis Diaz, Dembélé, Kvaratskhelia, Doué... Mas por que eles são tão decisivos? Porque se cada jogador do seu time tem um marcador a persegui-lo, poucas formas de desarticular a defesa são tão eficazes quanto o drible. Ele abre espaços, ou obriga um outro defensor a abandonar sua marcação para combater quem está com a bola, deixando um outro adversário livre.
E por que times tendem a acumular menos passes em jogos assim? Porque quanto mais jogadores estão no campo ofensivo pressionando a saída de bola do adversário, mais espaços há às costas da pressão. E, invariavelmente, sair da pressão e acionar rapidamente os atacantes criará os duelos homem a homem entre um marcador e um atacante habilidoso. Foi o que vimos em Paris.
Kvaratskhelia, Diaz, Olise, Dembélé, todos marcaram gols em jogadas definidas num duelo pessoal entre o dono da bola e um defensor. E o desequilíbrio se deu pelo talento individual.
Mas os times não defenderam mal? A pergunta é natural após nove gols numa semifinal de Champions. E tudo pode acontecer ao mesmo tempo. É possível ter um jogo espetacular, atraente, divertido, de alta capacidade técnica dos atacantes e com sistemas defensivos que não tenham funcionado. Claro está que um placar como esse indica que as defesas foram muito superadas. E, provavelmente, os dois treinadores esperavam que seus defensores evitassem tantos gols do adversário.
Mas há, acima de tudo, uma opção por esta forma de jogo. Enfrentar rivais deste porte assumindo tantos riscos é uma escolha que, na visão de Luís Enrique e Kompany, aproxima suas equipes de vencer. Só que, quando estes times se cruzam, só um deles sairá vitorioso. O notável é como a avalanche de gols do jogo jamais levou qualquer dos dois técnicos a alterar a forma de defender: os riscos de defender mano a mano, de ver zagueiros protegendo grandes pedaços de campo, foram mantidos. A ideia era atacar, e sem a bola era defender sempre olhando para frente, e não para trás.
Talvez, ambos sofressem menos gols com uma abordagem mais conservadora. Mas seriam tão eficazes no ataque? O futebol é um eterno cobertor curto e o equilíbrio perfeito raramente é encontrado. Cabe a cada técnico escolher que riscos está disposto a correr. Quem chegar à decisão, o fará com seus grandes méritos defensivos e com algumas vulnerabilidades, um risco assumido, um nível de imperfeição que mesmo as grandes equipes do mundo por vezes têm. Mas o espetáculo desta terça-feira ficará na memória.