Davi Vallim fala sobre os principais resultados na natação
Davi Vallim tem o jeito tímido de alguém ainda se acostumando a estar sob os holofotes. Aos 18 anos, o mineiro aprende a lidar com os pedidos de entrevista e com a quantidade crescente de mensagens que tem recebido nos últimos dias. Uma situação nova.
Nas piscinas, é diferente. Uma vida inteira na natação, esporte que pratica desde os 11 meses de idade, conferiu ao jovem atleta do Minas Tênis Clube uma familiaridade com a água que só poderia acabar por formar um campeão — que tem, agora, viagem marcada para a Califórnia, onde continuará seus treinos na Universidade de Stanford.
+ De volta às competições aos 46 anos, Nicholas Santos é campeão do SP Open nos 50m borboleta
+ Gabrielzinho vence o Prêmio Laureus na categoria "Melhor Atleta com Deficiência"
Promessa da modalidade, Davi foi o maior medalhista do Time Brasil nos Jogos Sul-Americanos da Juventude de 2026, realizado no Panamá entre 12 e 25 de abril. Conquistou oito ouros e uma prata, somando provas individuais e coletivas, e participou de oito quebras de recordes do torneio.
— É uma honra poder representar meu país e subir no pódio, ouvir o hino brasileiro tocando, ver a bandeira ali na frente. É uma sensação de muita emoção. E também é muito bom saber que, de alguma forma, eu estou contribuindo, fazendo parte da história do esporte brasileiro — contou ao ge.
Davi Vallim mostra as nove medalhas que conquistou em competição no Panamá
Leo Barrilari/COB
A ficha caiu parcialmente. Nem o próprio nadador esperava um resultado tão positivo na competição. O foco da temporada era o Troféu Maria Lenk, que acontece em maio. Por isso, a parte física não estava totalmente afiada, e o pouco intervalo de tempo entre as provas parecia outro empecilho. Ainda assim, o desempenho foi acima da média. Isso aumenta a motivação.
— Agora, fazendo um polimento certinho, descansando bem, treinando forte, acho que eu posso superar ainda mais o que eu tenho como objetivo e superar ainda mais o meu limite — explica.
Geração promissora
Davi faz parte de uma geração de grande potencial da natação. Nos Jogos Sul-Americanos da Juventude, por exemplo, a equipe do Brasil saiu campeã da modalidade: foram 45 medalhas, sendo 21 de ouro, 15 de prata e nove de bronze.
+ Jogos Sul-Americanos da Juventude 2026: piauienses conquistam ouro no badminton nas duplas masculinas
+ Campeãs olímpicas visitam atletas brasileiros nos Jogos Sul-Americanos da Juventude
São resultados que trazem esperança para o país nas piscinas depois de um desempenho frustrante nos Jogos Olímpicos de Paris, em 2024. Na ocasião, a seleção saiu sem pódios pela primeira vez desde 2016.
— A nova geração está vindo bem forte. Tem uma galera muito boa, muitos competidores que são muito bons tecnicamente também. E eu acho que, potencialmente, no futuro, muitos tem chance de representar o Brasil nas Olimpíadas, vir a pegar uma final, até mesmo uma medalha — avalia.
Davi, em disputa nos Jogos Sul-Americanos da Juventude
Leo Barrilari/COB
Os Jogos Olímpicos também são o sonho do menino. A meta é poder competir já na próxima edição, em Los Angeles, em 2028. Nadador das provas de medley, costas e borboleta, ele conta com uma inspiração que trilhou caminho semelhante e levou uma prata em Londres, em 2012.
— O Thiago Pereira, nadador brasileiro. Ele nadava as mesmas provas que eu, que é o medley, ele tinha como prova principal. E ele foi um dos atletas mais completos do mundo, porque tinha os quatro estilos muito bons. Eu tomei como referência principalmente no medley, porque ele foi o maior nadador de medley do Brasil. Isso sem levar em conta que ele disputava com Michael Phelps, Ryan Lochte, esses nadadores que tão no topo da lista.
Influência da família
Quem vê o jovem Davi competindo internacionalmente não imagina que, quando criança, ele desejava deixar a natação. Foi por causa de um trato com a mãe — que garantiu que ele poderia parar de treinar caso fosse aprovado em uma seletiva para a pré-equipe do Minas Tênis Clube — que o garoto decidiu permanecer.
— Eu era muito novinho, era mais na escolinha mesmo, antes da pré-equipe, para aprender. Como eu era muito novinho, eu só queria saber de brincar e fazer bagunça, então eu ia para aula só para brincar. Às vezes tomava uns xingos dos professores e não gostava. Acabou que depois, quando eu passei, achei legal. Aí eu continuei.
À época, o atleta dividia seu tempo entre as piscinas e os tatames. No mesmo clube, Davi participava também dos treinos de judô. Quando chegou a hora de escolher entre uma modalidade ou outra, a influência da família pesou.
Davi mostra medalha conquistada no Troféu José Finkel
Satiro Sodré/MTC
A irmã mais velha do nadador, Valentina, foi a primeira a demonstrar potencial nas águas. A garota chegou a ser campeã brasileira na categoria infantil, mas parou de nadar para focar no vestibular. Foi ela quem o inspirou no início e, agora na faculdade, continua apoiando o irmão.
— Minha irmã já nadava. Ela era uma atleta muito boa. Por influência e admiração, e até também por influência dos meus pais, acabei escolhendo a natação e aqui estou hoje em dia. Minha irmã me motiva bastante e me ajuda bastante também, porque ela já foi nadadora.
Hoje em dia, por conta dos estudos, a irmã tem mais dificuldade em acompanhar as competições presencialmente. A torcida local, sobretudo em torneios nacionais, fica à cargo dos pais.
Apoio fora das águas
Nos momentos dentro e fora da água, o nadador encontra forças em dois pilares de sua vida: a fé e a música. Sua proximidade com a religião é forte e, se ele pudesse escolher algo para contar de si para as pessoas, seria que "nada do que faço eu conseguiria se não fosse por Deus".
— Quando eu chego na competição, antes de nadar, depois do aquecimento, eu gosto de me alimentar e de orar também. Eu oro várias vezes antes da prova, entrego a prova a Deus. Acho que é a coisa mais importante que tem — revela.
A arte também o ajuda. A relação de Davi com a música é quase como uma herança familiar. Com um avô acordeonista, um outro tenor e a avó pianista, era difícil não se envolver com algum instrumento. O primeiro foi o piano, mas logo vieram outras cordas: a guitarra e o violão, que é o favorito.
Davi Vallim conta sobre recuperação de lesão e importância da música no processo
Foi ele que, durante o período de recuperação de uma lesão, em 2024, ajudou o nadador a se manter mentalmente estável. Davi sofreu uma fratura osteocondral no joelho em uma aula de educação física na escola e teve que passar por uma cirurgia que o afastou por semanas dos treinos.
— A música me ajudou muito. No momento da lesão, o mais difícil foi a ansiedade, aquele pensamento de "será que eu vou voltar a nadar?". A música me ajudava a ficar tranquilo. Eu ficava tocando quase o dia inteiro, porque chegava da escola, fazia as tarefas, e já ficava tocando, porque não tinha muito o que fazer.
Nos fones de ouvido, dominam a música gospel e o rock antigo. Bandas como as britânicas Dire Straits e The Police, ambas do fim da década de 70, são a preferência do menino, que nasceu em 2008.
Próxima parada: Stanford
Um dos próximos desafios de Davi é ir para a Universidade de Stanford, na Califórnia. Ele foi aprovado para fazer parte do programa esportivo da instituição em novembro. A viagem já tem data marcada: será em setembro, logo depois do Troféu José Finkel.
— Estou muito animado, sabe? Acho que vai ser bem legal a experiência. Às vezes eu fico um pouco nervoso, dá um frio na barriga saber que vou morar longe, a vida lá é completamente diferente. Mas, sim, estou bastante animado e acho que vai ser uma grande oportunidade — diz.
Davi Vallim em ação no Troféu José Finkel
Satiro Sodré/MTC
O recrutamento exigiu atitude do garoto. Foi ele quem procurou o treinador da universidade e enviou vídeos seus nadando. Apesar de ter pensado em não aplicar para a vaga por conta do tempo — em geral, nadadores procuram os técnicos universitários dois anos antes de poderem se mudar, enquanto o brasileiro tinha somente um ano —, Davi foi aceito.
— Meu pai falou: "Manda, tem que mandar. O 'não' você já tem, agora tem que tentar o 'sim'". Eu mandei um e-mail para ele, ele me respondeu e acabou surgindo a oportunidade de ir para lá. Tinha uma vaga sobrando, aí eu consegui ser recrutado.
No esporte, mudar de país para treinar não é incomum. O próprio Cesar Cielo — principal referência da natação brasileira — foi para o país norte-americano, onde competia pelo time da Universidade de Auburn.
Por lá, além dos treinos, ele se dedicará ao estudo da economia. Depois de cursar administração no ensino médio técnico, o garoto tomou gosto pela área dos negócios.
— Se eu fosse fazer a faculdade no Brasil, iria fazer algo como engenharia de produção. Mas lá eu sei que não tem. O mais próximo seria "industrial engineering", que é como se fosse uma engenharia industrial. Mas não era 100% igual, e Stanford não tem essa matéria como programa na faculdade. Então, acabei escolhendo a economia mesmo, porque era o mais próximo da área de business que eu gosto.
Mesmo nos Estados Unidos, Davi continuará representando o Minas Tênis Clube em competições federadas. O clube já tem outros atletas que frequentam universidades no exterior. Porém, antes disso ser a realidade também do jovem nadador, ainda há muito o que nadar no Brasil. É somente o início da construção de um futuro promissor.
Veja as medalhas de Davi Vallim
50m Costas - ouro - 25.68*
50m Borboleta - prata - 24.20
100m Costas - ouro - 55.68*
100m Borboleta - ouro - 54.01*
200m Costas - ouro - 2:02.05*
200m Individual Medley - ouro - 2:01.38*
Revezamento 4x100 Livre Masculino - ouro - 3:22.50*
Revezamento 4x100 Medley Masculino - ouro - 3:43.50*
Revezamento 4x100m Medley Misto - ouro - 3:53.09*
* Novo recorde dos Jogos Sul-Americanos da Juventude