O GP da Catalunha foi caótico, mas não precisava. Um cenário que, convenhamos, poderia ter sido evitado há muito tempo. Tudo ia bem dentro da pista até a volta 12, com brigas pelas primeiras posições e uma rara dificuldade das dominantes motos da Aprilia. Mas os graves acidentes de Álex Márquez e Johann Zarco, em momentos separados, levaram a dupla para o hospital e colocaram novamente a MotoGP sob holofotes por colocar as vidas dos competidores em risco, como se apenas o espetáculo valesse a pena.
O primeiro grande drama em Barcelona quando Pedro Acosta teve um problema mecânico na KTM #37 e perdeu velocidade de forma abrupta na reta oposta. Pior para Álex Márquez que vinha logo atrás, não conseguiu desviar e sofreu um gravíssimo acidente, com direito a equipamento capotando, atendimento médico na pista e fratura em uma vértebra e na clavícula.
Na relargada, Johann Zarco perdeu o controle, escorregou e fez um strike ao acertar Francesco Bagnaia e Luca Marini. O francês levou a pior, ficou com a perna esquerda presa na Ducati #63 e capotou algumas vezes, girando como se fosse um boneco de pano. Outra bandeira vermelha, outro piloto no hospital.
Se já não havia clima para uma segunda largada, a MotoGP decidiu dobrar a aposta e foi para uma terceira partida. Novamente com os pilotos parados, se aproximando da perigosa curva 1, que tem gerado acidentes ano após ano, mas sem que qualquer modificação seja feita pelos organizadores ou solicitada pelos pilotos — e guarde este detalhe, será importante ainda neste texto.
Ver a MotoGP esticar a corda enquanto algum piloto sofre no hospital não é nenhuma novidade. A categoria, comandada há décadas pela família Ezpeleta, parece ignorar a importância dos competidores para familiares, amigos e torcedores. O que vale é apenas o espetáculo, mesmo que seja dantesco após o mundo inteiro presenciar uma moto capotar no meio da reta oposta do circuito de Barcelona. Afinal, para eles, o show não pode parar.
E é cansativo escrever sobre isso mais uma vez. Em novembro do ano passado, o Mundial de Motovelocidade viveu outro momento de apreensão quando José Antonio Rueda e Noah Dettwiler sofreram um grave acidente antes mesmo da largada do GP da Malásia. Os dois competidores ficaram caídos na pista, um helicóptero pousou para resgatar um piloto que sofreu parada cardíaca e, mesmo assim, a prova da Moto3 continuou como se nada tivesse acontecido. E é importante destacar: nada mais valia naquele momento, todas as disputas já estavam definidas.

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A insensibilidade da detentora comercial da MotoGP pode também ser relembrada na morte de Jason Dupasquier, durante o fim de semana do GP da Itália de 2021. Na ocasião, o suíço foi atropelado durante a classificação, levado de helicóptero (parece familiar?) para um hospital da região e acabou declarado morto cerca de 24 horas depois. Por conveniência ou coincidência, a morte de Dupasquier foi anunciada logo após a corrida da Moto3, afetando um pouco menos a participação dos colegas de grid.
Mesmo este ano, ainda que em menor proporção, o caos reinou em Goiânia. Vimos alagamentos na pista, um buraco abrindo na reta principal e o asfalto virando farelo — a ponto de machucar alguns pilotos —, mas o show continuou e tudo foi feito para parecer um sucesso de organização, quando sabemos bem que passou longe disso.
O fato é que o MotoGP Sports Entertainment Group, antes conhecida como Dorna, parece fazer o que bem entender justamente por não ter com quem debater essas questões. O dinheiro vai fazer a diferença e os pilotos, omissos, vão aceitar de cabeça baixa, subservientes a seus patrocinadores e sem contestar a família Ezpeleta. Por isso, como bem explanou Francesco Bagnaia esta semana, a Comissão de Segurança está cada vez mais esvaziada.
O italiano, bicampeão mundial e uma das poucas vozes ativas no grid, lamentou que a comissão tenha se reunido com apenas três pilotos em Le Mans para debater algumas regras importantes. E isso se reflete, claro, na parte da segurança. Afinal, como os pilotos vão levantar o tom contra diversos problemas nas pistas se nem mesmo aparecem nas reuniões? Jorge Martín falou da falta de proteção em trechos da pista de Barcelona na sexta-feira, quando sofreu uma queda assustadora, mas nada foi feito para mudar.

A largada do GP da Catalunha também sempre gera acidentes. Afinal, ela é muito distante do ponto de partida, fazendo com que as motos cheguem em alta velocidade, com pneus ainda frios, dificultando a frenagem. Custava mudar o ponto de saída dos pilotos? Provavelmente, sim, para organizadores e para aqueles que se acham corajosos por acelerarem motos a 300 km/h, mas que se escondem quando precisam mostrar personalidade e expressar algum tipo de posicionamento em meio ao caos. Além disso, só neste domingo, foram três largadas cheias de caos em Barcelona.
“Dia terrível para nós. Somos os melhores do mundo, sabemos como focar antes das largadas. Mas quando vi o Johann [Zarco] depois do acidente, tive lembranças do passado. Agora que a adrenalina diminuiu, tenho um embrulho no estômago”, disse Luca Marini, da Honda.
No fim, sabemos que esses pilotos correm risco a qualquer momento, diante de qualquer circunstância e em todos os circuitos da temporada da MotoGP. A adrenalina, somada ao sentimento de prazer em vencer o medo, é o que move cada um deles sobre uma moto. Nem por isso eles podem ficar sem uma união decente para valorizar a própria segurança. Ninguém quer um esporte inseguro, sem seus grandes nomes, como vive a categoria neste momento.
Ou como bem disse Álex Rins após a corrida: “Quando vi o Álex [Márquez] caído no chão, meu coração de despedaçou. Somos, antes de qualquer coisa, humanos”. Ouviu, MotoGP? Humanos, de carne e osso, donos de sentimentos positivos e negativos. Os verdadeiros responsáveis pelo espetáculo que você tenta minar com decisões estapafúrdias.
A MotoGP retorna entre os dias 29 e 31 de maio, para o GP da Itália, direto de Mugello, na sétima etapa da temporada 2026. O GRANDE PRÊMIO faz a cobertura completa do evento, assim como das demais classes do Mundial de Motovelocidade.
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Fonte original: Grande Prêmio