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F1: Ferrari 'revoluciona' motor, mas enfrenta problemas

Unidade de potência opera em temperaturas elevadas, oferecendo importantes oportunidades de desenvolvimento, porém, pacote tem apresentado déficit

F1: Ferrari 'revoluciona' motor, mas enfrenta problemas

Unidade de potência opera em temperaturas elevadas, oferecendo importantes oportunidades de desenvolvimento, porém, pacote tem apresentado déficit

Ao contrário das outras equipes da Fórmula 1, o motor da Ferrari tem o cabeçote de aço. Quando a notícia foi divulgada, a escolha de uma liga mais pesada que o alumínio não parecia realista, mas decididamente mais resistente. Por quê? Segundo os rumores, Enrico Gualtieri e sua equipe seguiram uma linha de projeto inédita. 

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Normalmente, um motor consegue atingir seu rendimento máximo reduzindo a temperatura do ar de admissão: quanto mais frio (em torno de 70-80 graus), mais eficiente ele é. A Ferrari, por outro lado, decidiu trilhar um caminho totalmente inédito na F1. 

O motor turbo de 6 cilindros 067/6 funciona em alta temperatura. Parece que o ar admitido no sistema de alimentação está bem acima dos 100 graus (o valor real, que poderia ser bem mais elevado, é mantido em segredo). Uma escolha que, no papel, pode parecer louca, mas que, no mínimo, pode ajudar a explicar a diferença que a unidade de potência da Scuderia apresenta em potência máxima em relação ao Mercedes AMG M17 E Performance, a referência da categoria. 

Detalhe da Ferrari SF-26: a caixa de ar é a menor do Circuito

Em Maranello, apostaram em abrir um caminho em que a unidade de potência não é o elemento determinante para o desempenho, pois a performance deve ser buscada na conexão perfeita entre o chassi e o motor, de modo a experimentar áreas de desenvolvimento ainda não exploradas pela concorrência.  

A Ferrari quis valorizar sua essência: o SF-26 é concebido, projetado e construído praticamente todo na mesma fábrica, uma característica que apenas a Red Bull consegue replicar, já que a Mercedes mantém separadas as áreas de chassi (Brackley) das de motor (Brixworth). O mesmo vale para a Audi, com o chassi fabricado em Hinwil e a unidade de potência em Nuremberg. 

Quais são as oportunidades de um motor 'quente', o qual permite extrair a potência máxima nas rotações mais altas? Em Maranello, ponderaram cuidadosamente antes de deliberar por uma solução ousada, adotada no momento em que todos os outros apostavam que o mundial de 2026 seria decidido apenas pelos motores. 

Enquanto isso, o motor V6 'quente' permite ter uma massa radiante reduzida nas laterais da carroceria. A vantagem, portanto, traduz-se em um menor peso do sistema de resfriamento, mas, sobretudo, permite levar a aerodinâmica ao extremo, com um formato das laterais mais sinuoso e que deverá ser ainda mais radical.

Os fabricantes de motores teriam abdicado de 10 a 12 cavalos para fazer o 067/6 funcionar com temperaturas operacionais decididamente mais elevadas do que qualquer concorrente, mas a “penalização” deveria ser compensada por uma maior eficiência aerodinâmica. Além disso, o trocador de calor instalado entre o chassi e o motor tem formas mais contidas, favorecendo o 'empacotamento' da unidade de potência.  

E chegamos a outro aspecto marcante do projeto 678: a escolha de ter no escapamento central gases superaquecidos a temperaturas mais elevadas, o que permite buscar um jato com uma importante função aerodinâmica.  

O sistema FTM (Flick Tail Mode) é uma ideia genial que agora está sendo copiada por todos, graças a uma interpretação extensiva do regulamento concedida pela FIA, que transforma um suporte do escapamento em um perfil aerodinâmico.  

O FTM proposto por Maranello e desenvolvido no pacote de atualização que estreou em Miami permite aumentar sensivelmente a extração do fluxo do difusor e tornar o aerofólio traseiro mais eficiente. Diante da perda certa de 5 a 7 cavalos devido ao “obstáculo” no escapamento, deve-se obter uma vantagem aerodinâmica mensurável em pelo menos meio segundo, com um delta decididamente a favor da inovação. 

Para completar a análise, devemos falar também do turbo Garrett: a Scuderia escolheu a configuração menor (há 10mm de diferença no diâmetro em relação à da Mercedes e da Red Bull).  Excelente na largada e na fase de recarga da bateria em baixas rotações, ele parece deixar cerca de 7 cavalos a menos de potência nas rotações mais altas. E, pontualmente, viu-se o SF-26 com dificuldades em atingir a velocidade máxima ou no superclipping quando se usa o motor a combustão para auxiliar na recarga rápida da bateria.  

O projeto do motor foi errado ou as vantagens aerodinâmicas que deveriam advir das escolhas ousadas feitas no propulsor não compensaram as expectativas de eficiência? A Ferrari consegue gerar uma carga traseira que nenhum outro carro consegue reproduzir, mas parece não conseguir capitalizar isso devido à comprovada falta de potência em altas rotações. 

Com o ADUO (Oportunidades Adicionais de Upgrade e Desenvolvimento, na sigla em inglês), a Scuderia espera reduzir pela metade a diferença em relação ao motor Mercedes. Parece que o desenvolvimento está caminhando para um aumento extremo da temperatura na câmara de combustão, sem negar de forma alguma a ideia inicial. 

E se acrescentarmos que o turbo manterá o diâmetro reduzido, mas com um impulsor revisado no número de pás e em sua inclinação para melhorar o enchimento em altas rotações, abrindo mão de um pouco de desempenho na aceleração — justamente na fase em que a Ferrari está em tração.

O resto, se ainda se quiser desafiar a Mercedes pelo título mundial, deve vir da carroceria. Não apenas dos aerodinamicistas Diego Tondi e Franck Sanchez, mas também de quem deve definir os ajustes.  

Foto de: Alastair Staley / LAT Images via Getty Images

Em Miami, o desgaste dos pneus traseiros após o safety car custou caro: a queda drástica na temperatura ambiente no domingo custou muito, porque Leclerc não tinha os pneus na faixa ideal na reinicialização e levou várias voltas para recuperar a aderência. E, para se defender de Lando Norris, teve que forçar um pouco os pneus, que inevitavelmente acabaram superaquecendo. Em suma, o conceito está longe de ser descartável, mas a integração dos sistemas ainda não está no ponto ideal. 

Mas, se a FIA rejeitar o sopro do escapamento em 2027, a Ferrari acabaria penalizada, a ponto de não se poder excluir a hipótese de mudar projetos que já haviam sido iniciados... 

Fonte original: Motorsport.com Brasil - F1