O ano era 2024. Lewis Hamilton havia anunciado, antes mesmo de a temporada começar, que iria se juntar à Ferrari no campeonato seguinte. A notícia-bomba chocou a Fórmula 1 e ajudou a pavimentar a decisão mais ousada que a Mercedes já tomou. Obviamente, não faltavam candidatos à vaga do heptacampeão, sendo Max Verstappen o nome dos sonhos. Como o neerlandês não quis deixar a Red Bull. Toto Wolff seguiu a intuição. Ao invés da experiência, preferiu um novato. Não qualquer estreante. Andrea Kimi Antonelli pertencia ao grupo das Flechas de Prata e já havia construído fama nas categorias de base. Só que colocá-lo de cara no Mundial era outra história. Wolff pagou para ver e agora dá para dizer: acertou em cheio.
A resistência em promover o jovem italiano se justificava. Afinal, seria um salto enorme, depois do pinote já dado entre a FRECA, onde fora campeão, e a Fórmula 2 — na qual teve boas atuações, mas nada comparado à performance nas séries menores, em que saiu com o título por onde passou. Por isso, havia certa desconfiança de que o jovem ainda não estava pronto para o desafio a seguir. Era necessário maturar. No entanto, diante do que parece ser uma das marcas maiores da carreira, Kimi foi mesmo jogado aos leões. Pulando etapas novamente, alcançou a Fórmula 1 aos 18 anos, praticamente recém-saído da escola. E o primeiro campeonato, como era de se esperar, foi mais difícil do que o imaginado — apesar do talento ímpar.
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Ainda que a Mercedes não tivesse o melhor dos carros, Antonelli penou para encontrar ritmo e dosar os erros de principiante. O desempenho chegou a colocar uma sombra sobre a decisão de promovê-lo tão cedo a titular, especialmente por conta da terrível fase durante a parte europeia do calendário — somou pouquíssimos pontos entre acidentes, problemas no carro e erros. Só que, apesar das incertezas, Kimi foi capaz de se recuperar, obteve pódios e performances mais contundentes na parte final do ano.
A virada de fato se deu em 2026. Dentro de um novo regulamento, a Mercedes acertou a mão no conjunto carro/unidade de potência, e isso entregou ao jovem uma chance de ouro de brilhar — trilhando caminhos semelhantes a de outros grandes nomes, como o do próprio Hamilton e de Sebastian Vettel, que não desperdiçaram a oportunidade quando um carro vencedor apareceu. A história de Antonelli se parece até mais com a do alemão, que teve de lidar com um companheiro de equipe mais experiente e ávido pelo sucesso.
E é aqui que a coisa se torna mais divertida. É que George Russell também reconhece que tem nas mãos uma grande chance de, enfim, conquistar o título mundial, especialmente após provar para a Mercedes e a F1 que tem capacidade para isso. Mas a pressão cobra um preço alto. Tanto que o inglês entrou em uma espiral de resultados ruins e medianos muito rápido na temporada. Enquanto isso, Kimi navegou por mares mais tranquilos. Conquistou vitórias importantes, mesmo em meio a erros — alguns até pela pouca experiencia. E agora tomou gosto pelo triunfo. O problema é que só isso não basta na F1.
Antonelli quase enche traseira de Russell no GP do Canadá (Vídeo: Reprodução/F1)
O GP do Canadá mostrou uma outra face de Antonelli. Uma face necessária. É que foi a primeira vez em 2026 que os dois companheiros de equipe tiveram a chance de um embate direto, em condições de igualdade, porque o carro alemão voou pelo circuito Gilles Villeneuve. Russell, então, se recuperou das fracas atuações das últimas corridas e voltou a mostrar força. Conquistou poles e venceu a sprint, mas não de maneira dominante. Isso porque Antonelli endureceu a briga e foi para cima do colega. Errou em divididas de curvas, mas também pegou o inglês de surpresa em outras. Reclamou e foi repreendido. Só não baixou a cabeça.
A verdade é que George chamou Antonelli para a briga, e o italiano não cedeu. Mesmo na corrida deste domingo (24), o confronto entre ambos foi aberto, tenso e com erros de ambos os lados, como o povo gosta. A sensação é de que o embate poderia escalar um pouco mais ainda. Mas o destino, caprichoso que é, tirou Russell cedo da disputa, por um problema na unidade de potência. Kimi venceu a parada e disparou na liderança do campeonato, com 43 pontos de vantagem.
De fato, um número significativo e que pode definir a busca do título. Só que, mais do que isso, mostra um Antonelli assustadoramente veloz. E agora um pouco mais experiente e pronto para a próxima etapa. Que é a de ser o favorito.
A Fórmula 1 retorna entre os dias 5 e 7 de junho, com a realização do GP de Mônaco, sexta etapa da temporada 2026.
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Fonte original: Grande Prêmio