A Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) determinou a instauração de um inquérito policial para apurar possíveis práticas de crimes de lesão corporal e exposição da vida ou da saúde de terceiros envolvendo Vicar – promotora da categoria –, AudaceTech – fabricante dos carros – e da Confederação Brasileira de Automobilismo (CBA) em virtude do acidente entre Bruno Baptista e João Paulo de Oliveira ocorrido na etapa da Stock Car no Autódromo Internacional de Brasília no ano passado.
O inquérito se tornou público nesta quinta-feira, 7 de maio, mas a determinação da PCDF se deu em 9 de abril. O episódio é mais um do imbróglio entre Bruno Baptista, Vicar, AudaceTech e CBA. Na condição de noticiante, o piloto apresentou em 9 de março a notícia-crime ao Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT), relatando fatos potencialmente criminosos relacionados à segurança do chassi SNG01 e ao acidente em Brasília, ocorrido em 28 de novembro de 2025, com João Paulo de Oliveira durante um treino livre, em que Bruno ficou com o carro de lado após breve escapada — como estas sessões não contam com transmissão de TV, também não há o vídeo do exato momento. Sem conseguir sair, permaneceu na pista por cerca de 13 segundos até que João Paulo, com a visão coberta pela poeira da pista e sem sinalização clara de que havia um problema adiante, acertou o oponente em ‘T’, posição tida como mais perigosa para um acidente automobilístico.
O expediente foi autuado no MPDFT como Notícia de Fato a partir de notícia-crime apresentada por Guido Ferolla, da Ferolla Advogados, em nome de Bruno Baptista. Diante de elementos indicativos de possível materialidade delitiva e da necessidade de apuração técnica, o Ministério Público requisitou à Polícia Civil do Distrito Federal a instauração de inquérito policial, com o objetivo de apurar as circunstâncias do acidente, preservar elementos de prova, reunir dados técnicos e identificar eventuais responsáveis.
O GRANDE PRÊMIO teve acesso ao inquérito policial de 3.135 páginas que investiga se os dirigentes das três empresas mantiveram conscientemente carros inseguros em atividade, criando o que se chama juridicamente de “risco proibido” para os pilotos.

Um dos pontos centrais da investigação é o paradeiro do carro de Baptista. O veículo foi retido pela CBA logo após o acidente, mas há suspeitas de que o lacre de segurança tenha sido rompido e que o chassi SNG01 tenha sofrido intervenções antes da perícia oficial. A polícia busca confirmar onde o carro está localizado.
Em 29 de abril passado, a Quinta Delegacia da PCDF solicitou ao “Senhor Presidente da Confederação Brasileira de Automobilismo, à AudaceTech e à Vicar a apresentação da localização, estado de conservação e história de intervenções realizadas no do carro #44 de Bruno Baptista no acidente em Brasília, assim como todos os registros relacionados, incluindo imagens, dados de telemetria e relatórios técnicos, devendo os arquivos ser encaminhados em formato original, sem edição, com preservação dos respectivos metadados e indicação de sua origem”. A autoridade policial não constituiu um prazo para as partes se manifestarem, mas a PCDF tem 90 dias para cumprir as diligências.
Ainda, esse processo não tem relação ao que tramita na 2ª Vara Cível da Comarca de Cotia (SP), onde a juíza Claudia Guimarães dos Santos deliberou uma liminar que obriga a preservação de um modelo SNG01 original para perícia judicial, a fim de verificar possíveis falhas técnicas graves e de segurança no carro da Stock Car. Em segunda instância, o tribunal rejeitou a tese de que o caso deveria ser julgado pela Justiça Desportiva, fundamentando que o objeto da ação extrapola questões meramente disciplinares ou competitivas, e manteve o processo na Justiça Comum.
Entretanto, a Polícia Civil do Distrito Federal também solicitou informações sobre o cumprimento da decisão de preservação do SNG01, assim como a localização do modelo como parte da ação de produção antecipada de provas, aberta por Bruno Baptista ainda em 2025. A tramitação ainda aguarda um posicionamento do perito judicial para andamento.
Baptista entrou na Justiça Comum por se sentir ignorado pelas entidades responsáveis pelo campeonato nas procuras iniciais, antes mesmo do acidente acontecer. No dia 24 de outubro de 2025, deu entrada em uma Ação de Produção Antecipada de Provas, sob argumento de que havia omissão significativa das entidades responsáveis em esclarecer falhas de segurança e riscos térmicos associados ao SNG01. A ação tinha dois objetivos centrais: viabilizar uma perícia técnica imparcial e antecipada sobre as condições estruturais e térmicas do carro; e impedir que provas materiais — como um exemplar do SNG01 na configuração original — fossem alteradas antes do exame judicial.
Na notícia-crime, a defesa de Bruno Baptista voltou a expor possíveis indícios de defeitos estruturais e térmicos aos carros da Stock Car, incluindo trechos do laudo técnico do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), onde o estudo aponta o SNG1 não assegura níveis adequados de desaceleração
e absorção de energia em determinados tipos de impacto, concluindo pela necessidade de outros elementos de proteção para que se alcance patamar tolerável de segurança aos ocupantes.
Também, a lista cita comissários Técnicos da CBA que assinaram relatórios reconhecendo que “todos os carros” apresentavam irregularidades que colocavam em risco a segurança, algo que o próprio inquérito remete à série de reportagens feitas pelo GRANDE PRÊMIO em dezembro do ano passado.
Também questiona a responsabilidade pela fragilidade estrutural dos chassi na fabricante do metal, sugerindo investigação para saber quem definiu a escolha pelo aço DP980 — se foi o Grupo Veloci, do qual Vicar e AudaceTech fazem parte, ou a ArcelorMittal, que fabrica o aço.
A defesa de Bruno Baptista, ainda na notícia-crime, determinou uma lista de pessoas a serem ouvidas para esclarecimento dos fatos:
- Enzo Bortoleto, diretor-executivo da AudaceTech e filho de Lincoln Oliveira, CEO da Vicar;
- Gilberto Ferreira Leão, administrador da AudaceTech e da Vicar;
- Giovani Guerra, presidente da CBA;
- Fábio Borges Greco, presidente do Conselho Técnico Desportivo Nacional (CTDN), vinculado à CBA;
- Diretor de prova, coordenadores de resgate e responsáveis médicos da etapa, ou seja [Renan Casetta e Dr. Dino Altmann);
- Administradores e dirigentes da holding Veloci Investimentos, ou seja, o próprio Lincoln Oliveira
- João Paulo de Oliveira, envolvido no acidente com Bruno;
- Helio Castroneves, que também sofreu por problemas relacionados com a falta de segurança do carro. Durante a classificação de uma etapa no Velocitta, teve extrema dificuldade de sair do modelo, que sofreu um princípio de incêndio. O veterano passou mal pela inalação de fumaça.

Também é ressaltado o contexto econômico-financeiro da Stock Car no Distrito Federal com menção direta ao Banco de Brasília (BRB). Controlado pelo governo local, a instituição é a principal patrocinadora da Stock Car e da Vicar. O documento aponta que os contratos de marketing entre o banco e a promotora têm sido alvo de questionamentos por órgãos de controle, especialmente quanto à evolução dos valores e à relação entre o uso de recursos públicos e a ascensão de pilotos ligados à gestão do campeonato. Embora não seja o foco criminal principal deste inquérito, o documento afirma que esses elementos reforçam o alto interesse público no caso.
Em decorrência das questões apresentadas, foi solicitada para MPDFT a suspensão dos modelos SNG01 até que a perícia faça sua conclusão. Em meio a este imbróglio jurídico, a CBA publicou uma ficha de homologação do chassi da Stock Car neste ano, chamando-o de SNG01 – 002, datada de fevereiro deste ano. Nos comunicados oficiais, a Stock Car segue tratando como SNG01.
O GRANDE PRÊMIO revelou que o BRB injetou mais de R$ 121 milhões no automobilismo brasileiro desde o início da gestão de Paulo Henrique Costa. A maior beneficiária deste investimento é justamente a Vicar, com quase 40% deste montante.
O Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) estabeleceu um prazo de 30 dias, contados a partir de 9 de abril, para que a Autoridade Policial apresente um relatório parcial das diligências. Este prazo é um mecanismo para garantir que o inquérito não fique estagnado e que Vicar, AudaceTech e CBA respondam aos ofícios enviados.
A pasta de provas da etapa de Brasília de 2025 informou que o carro de Bruno Baptista foi lacrado e encaminhado para vistoria nas dependências da AudaceTech, onde só poderia ser desmontado e deslacrado mediante a presença de um representante da CBA. Procurada pelo GRANDE PRÊMIO sobre o paradeiro do carro, a entidade declarou que “não está de posse da CBA, de modo que não somos a fonte mais adequada para os esclarecimentos solicitados”.
Vicar e AudaceTech também foram procuradas, mas não se manifestaram até a publicação desta matéria. O mesmo ocorreu com a ArcelorMittal, questionada sobre a responsabilidade pela escolha do aço DP980 para o chassi do SNG01. Os esclarecimentos serão inseridos na matéria caso as partes se manifestem.
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Fonte original: Grande Prêmio