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Russell perde cabeça e voa para longe da ponta da F1. Mas derrocada não faz sentido

Se os primeiros movimentos de 2026 aparentavam que George Russell desfilaria ao título, realidade das últimas etapas passou a contar história bem diferente. Por quê? É um dos grandes mistérios do momento O post Russell perde cabeça e voa p…

Russell perde cabeça e voa para longe da ponta da F1. Mas derrocada não faz sentido
George Russell está vivendo instabilidade extremamente inesperada na F1 2026 (Foto: F1)

A história da Fórmula 1 é contada pelos vencedores, como em qualquer esporte, mas talvez mais que em qualquer outra modalidade a diferença entre glória da vitória e o dissabor do não vencer é definida por oportunidade. Para alguns, passa várias vezes; para outros, passa apenas uma vez, no momento errado, e jamais retorna; com os dotados de menos sorte, pode nunca aparecer. Mas é apenas nestes momentos, que todo piloto sonha em viver, que é possível entender do que aquele atleta é feito. Pelo menos naquele recorte histórico. É o momento da oportunidade que baliza se a opinião pública estava certa ou errada acerca daquela pessoa. Entra na sala George Russell e a temporada 2026.

Russell foi campeão da Fórmula 2 naquela que foi a temporada mais pesada dos últimos tempos. Encarou Lando Norris, Alexander Albon e companhia limitada, levou a melhor na boa e subiu com a chancela de futuro da Mercedes. Pudera, a companhia alemã, ao ver a chegada de George, praticamente abriu mão para os planos que tinha para Esteban Ocon. Subiu Russell para a Williams para dar rodagem. Uma rodagem que demorou a acabar.

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Aquela geração foi rápida em escalar o muro do noviciado por equipes de meio de pelotão para aparecer na ponta. Charles Leclerc partiu para a Ferrari em seu segundo ano; Albon, em meia temporada, guiava pela Red Bull; Norris foi parte ativa de uma McLaren que pegou o elevador. E mais? Pouco mais velhos, Max Verstappen vencia corridas com o touro vermelho até a temporada do primeiro caneco, em 2021, e até mesmo Ocon, escanteado pela Mercedes, pontuava e até vencia, pela Renault, naquele mesmo 2021.

Russell foi quem precisou amargar. Foram longos três anos por uma Williams que amargava o fundo do grid e onde os pontos eram raros. É difícil ver o mundo dos seus rivais temporais evoluir enquanto o seu fica no mesmo lugar. A primeira grande oportunidade de George foi o GP de Sakhir, corrida realizada no anel externo da casa da prova no Bahrein, no fim da temporada pandêmica. Com Lewis Hamilton fora de combate por ter contraído covid, Russell foi para a equipe de cima e, embora Valtteri Bottas tenha conquistado a pole, o jovem inglês se encaminhava para a vitória até um problema no carro jogá-lo para o nono lugar. Como Bottas já estava certo para 2021, permaneceu. Russell continuou a amargar o time, na prática, B.

Quando finalmente subiu, no quarto ano de F1, o mundo tinha mudado. Após quase uma década de domínio da Mercedes, as novas funções aerodinâmicas mudaram drasticamente a ordem de forças. A Red Bull era quem mandava, a Ferrari vivia de brilharecos e a Mercedes sofria. Sofria muito. Russell fez o melhor com o que tinha, conquistou a única vitória da equipe na temporada, o GP de São Paulo, a primeira dele na F1. E marcou mais pontos que o companheiro de equipe, um heptacampeão como Hamilton. Derrotado na briga interna em 2023, voltou a levar a melhor em 2024.

Ganhar a batalha interna é fundamental, e Russell fez para cima de uma lenda viva da F1. No caminho, mostrou ser piloto que preza pela regularidade. Capaz de muita velocidade, sim, mas a constância sempre marcou George. No primeiro ano de Mercedes, com a equipe em apuros, ficou fora do top-5 apenas uma vez nas primeiras 16 corridas do ano — e apenas por um acidente no qual foi um tanto quanto inocente na largada do GP da Inglaterra. Terminou o campeonato com 19 resultados no top-5 em 22 provas.

George Russell teve longa passagem pela Williams (Foto: Williams)

Em 2025, primeiro ano em que assumiu a liderança de direito, após a saída de Hamilton e chegada do novato Andrea Kimi Antonelli, repetiu o feito. E daí que McLaren e Red Bull abriram o campeonato duelando para ver a quem pertencia o caneco, com ampla vantagem para os laranjas? Russell foi ao pódio em quatro das seis primeiras etapas. Pontuou em 23 das 24 corridas do campeonato, com duas vitórias e nove pódios. Quase sempre mais veloz que o jovem parceiro de garagem.

Por isso, quando a temporada 2026 apontou mais um conjunto de novas regras e a Mercedes de volta à dianteira, Russell era o evidente favorito. Mostrou a mesma coisa nos testes de pré-temporada, sempre um passo e meio à frente do ainda muito jovem Antonelli, com 19 anos de idade. Na abertura da temporada, controlou a situação com ampla facilidade. Na classificação pôs 0s6 para Antonelli no Q1 e 0s5 no Q2. Bateu o rival por 0s3 para conquistar a pole e tratou de levar a prova em banho-maria, sem ser incomodado por Kimi. Superou as ótimas largadas da Ferrari e venceu com pinta de quem vinha para atropelar no campeonato.

A etapa seguinte era uma sprint com seu desenho diferente. Mais uma vez, começou melhor e liderou o TL1 com 0s120 de frente para Antonelli. Na mesma sexta-feira, na classificação curta para a corrida sprint, viu o rival se aproximar no Q1 e Q2, mas espantou a ameaça e colocou quase 0s3 novamente no Q3. Pole e vencedor na prova curta no dia seguinte. Sem maiores complexidades.

Aí, a classificação oficial. Em ritmo de tranquilidade, foi melhor novamente que o companheiro no Q1 e Q2, mas teve problemas no começo do Q3. Deu apenas uma volta, bem no fim, e, com isso, acabou superado pela primeira vez. Antonelli largou na ponta e, no domingo, levou a melhor enquanto Russell foi deixado para lidar com as Ferrari e, ao menos, entregou uma dobradinha. Mas as coisas não foram como antes outra vez.

George Russell era só sorrisos durante os testes de pré-temporada (Foto: Mercedes)

Desde então, Antonelli tem levado vantagem e transformado em realidade o que em Xangai parecia somente fruto de um capricho do destino do esporte. Kimi fez a pole no Japão e em Miami, tanto na sprint quanto na oficial, e transformou as duas provas oficiais em vitória — só perdeu a sprint para Norris numa McLaren reformulada — , ao passo que Russell não conseguiu se safar da armadilha das más largadas da Mercedes e da ameaça de Ferrari e McLaren. No Japão, largou em segundo e chegou em quarto; em Miami, foi quarto colocado tanto na sprint quanto na prova oficial, mas ainda classificando mal — foi apenas sexto na sprint e quarto mesmo na prova longa.

A sensação na abertura do ano era de que Russell travaria uma briga desigual com Antonelli, a quem venceria como um irmão maior sobre um irmão menor que, apesar de muito talentoso, não teve força o bastante para mirar nas estrelas. De domínio absoluto a ser subjugado em algumas semanas, a situação levanta questões.

O ritmo e a resposta de Antonelli são reais ou é algo meramente circunstancial que tem empurrado George para trás nas corridas recentes? Por enquanto, a Mercedes ainda protege.

“Se tivéssemos parado George uma volta depois, ele seria líder na relargada. Do jeito que as coisas aconteceram, ele caiu para terceiro e perdeu uma posição para Lewis ao acionar a recuperação de energia cedo demais. Assim, não tinha bateria para a relargada. Depois, houve outro problema frustrante, em que um bug no código do software, causado por uma passada de marcha e um botão apertado ao mesmo tempo, fez com que o motor entrasse em superclipping e começasse a carregar a bateria. Isso permitiu a Charles passar”, explicou a Mercedes, por meio do diretor de engenharia de pista, Andrew Shovlin, puxando para si, após o GP do Japão.

George Russell venceu a primeira corrida da F1 2026 (Foto: Mercedes)

Depois da classificação em Miami, Toto Wolff, o chefe da Mercedes, saiu em defesa. “George me disse que tem encontrado dificuldades em certas pistas. Aqui, o asfalto é muito liso. É quase como quando um jogador de tênis é bom em terra batida e outro em piso duro. Ao longo da classificação, ele se recuperou e faltou apenas um pouquinho para o terceiro lugar, por isso estou muito feliz em ver o desenvolvimento dele na classificação numa pista em que não se sente 100% confortável.”

Sim, a temporada é jovem o bastante para que tudo seja uma grande coincidência. Resultado de dois problemas distintos em China e Japão e de uma pista que simplesmente não casa com George, em Miami. É possível.

Também é verdade que George, elogiado pelos picos de desempenho e pelo platô de resultados que conquistou ao longo dos anos de Mercedes na F1, com a realidade dos carros que teve, nunca contou com a chance real de vencer sempre. Foram poucas as vezes em que recebeu um carro com chances de vencer corrida, que dirá o campeonato. E, até aqui, desperdiçou em três das quatro oportunidades em 2026. Nas últimas duas, sequer foi ao pódio.

Com a Fórmula 1 chegando ao Canadá, onde venceu no ano passado e sempre andou bem, para depois ir à Europa e ao coração da categoria, o tempo de Russell ser tratado com benevolência está acabando. Será cobrado como um piloto de quem se espera o título mundial e que está perdendo para um adolescente com menos de 30 corridas de experiência e que há três anos estava correndo em categorias nacionais.

Depois disso, só deu Kimi Antonelli (Foto: Mercedes)

A Mercedes terá em Montreal as atualizações que não teve em Miami, quando as rivais foram de certa maneira beneficiadas. Mudanças na redução de peso, gerenciamento de largada, correção do motor… tudo isso oferece mais uma oportunidade.

Só que tentar encontrar uma saída é racionalizar algo que não faz sentido. A queda de Russell neste começo de campeonato não faz sentido quando justaposta ao cenário de controle mostrado nos testes do Bahrein e na Austrália. Como aquilo virou isso em tão pouco tempo?

Há que se olhar para o arco de Norris no ano passado. Lando não controlava Oscar Piastri com a mesma tranquilidade no começo do ano, mas após a Austrália viu o companheiro cresceu e a confiança, desmanchar. Foi preciso jogar o jogo da estratégia longa para retomar a dianteira só lá perto do fim do ano, mesmo tendo passado o ano inteiro tirado para desperdício de oxigênio no grid da F1. Com Norris, o diagnóstico simples era que estava tudo na cabeça. A personalidade sincericida deixava às claras que tudo ali andava no fio da navalha de um yin-yang sem fim. Russell sempre se portou diferente, mas, talvez para algumas coisas, a ordem dos fatores não altere o produto.

Existe algo ainda mais grave na situação de George, porém. Norris, desde as primeiras movimentações de pista de 2025, dizia que o carro não era muito do gosto de sua pilotagem, apesar de ser muito bom. Russell, não. Até anteontem, vestia o carro como a uma luva feita sob medida. Deixar-se voar para longe da situação é aparentemente o que acontece, porque não havia drama com o W17. Mas voar para longe de tudo é também ser voado para fora da liderança. Já são 20 pontos entre os dois. E continua fazendo pouco sentido.

Fórmula 1 volta de 22 a 24 de maio com o GP do Canadá, quinta etapa da temporada 2026.

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