Há exatamente 30 anos, o GP de Mônaco de 1996 entrou para a história como uma das corridas mais caóticas, imprevisíveis e emblemáticas já vistas na Fórmula 1. Em meio à chuva, acidentes, panes mecânicas e apenas três carros recebendo a bandeirada, Olivier Panis protagonizou uma das maiores zebras da categoria ao conquistar a única vitória da carreira — e a última da Ligier na F1.
O triunfo do francês, então com 29 anos, representou também o primeiro sucesso de um motor Mugen-Honda desde a saída oficial da montadora japonesa da categoria, no fim de 1992. Mais do que isso: virou um símbolo de resistência de uma equipe tradicional francesa que vivia período turbulento financeira e politicamente.
Aquele domingo de 19 de maio de 1996 começou sob enorme expectativa em torno de Damon Hill. O piloto da Williams chegava ao Principado com quatro vitórias nas cinco primeiras corridas da temporada e aparecia como favorito absoluto. Filho do lendário Graham Hill — por muito tempo, recordista de triunfos em Mônaco, com 5, até ser ultrapassado por Ayrton Senna em 1993 —, Damon queria finalmente vencer no lendário circuito depois de perder a prova de 1995 para Michael Schumacher mesmo após largar na pole.
Mas foi Schumacher quem brilhou no sábado. O alemão colocou a Ferrari na pole-position com mais de 0s5 de vantagem sobre Hill e garantiu à escuderia italiana a primeira pole em Mônaco desde 1979. Jean Alesi e Gerhard Berger colocaram a Benetton na segunda fila, enquanto Panis sofreu nos treinos. Um problema eletrônico comprometeu a classificação da Ligier, e o francês largaria apenas em 14º — o que minava qualquer expectativa de um bom resultado. O domingo, porém, virou um teste de sobrevivência.

Uma forte chuva atingiu Monte Carlo e deixou o circuito completamente encharcado. As equipes correram contra o tempo para adaptar os carros, enquanto vários pilotos enfrentaram problemas ainda no warm-up. Mika Häkkinen bateu a McLaren e precisou usar o carro reserva. Já Luca Montermini bateu a Forti na saída do túnel e sequer conseguiu alinhar no grid pela ausência de um modelo extra.
David Coulthard viveu situação curiosa: percebendo que a viseira do capacete não funcionaria adequadamente na chuva, pediu emprestado um modelo de Schumacher. O alemão aceitou, e o escocês disputou a corrida usando o famoso capacete azul, branco e vermelho do rival da Ferrari.
Na largada, Hill tomou a liderança de Schumacher na Sainte Dévote, enquanto Jos Verstappen apostava nos pneus slicks em pista molhada — estratégia que terminou imediatamente no muro. O caos aumentou ainda mais momentos depois. Ainda na primeira volta, Schumacher escapou na curva Portier ao tocar a zebra molhada e bateu a Ferrari no guard-rail. Rubens Barrichello também rodou e abandonou pouco depois.
Em apenas quatro voltas, sete pilotos já estavam fora da prova. Hill parecia caminhar tranquilamente para a vitória. O britânico abriu mais de 20s sobre Alesi e controlava completamente a corrida, enquanto atrás dele o pelotão se digladiava em pista traiçoeira. Panis, entretanto, começava silenciosamente a construir a atuação da vida.

Com a Ligier carregada de combustível graças a uma estratégia ousada desenhada após a chuva da manhã, o francês ganhou posições ainda na primeira parte da corrida. Diferentemente de muitos rivais, precisou apenas trocar pneus quando a pista secou, sem reabastecer, e saltou para a disputa pelas primeiras posições. A partir dali, brilhou.
Panis ultrapassou Martin Brundle, Häkkinen, Johnny Herbert e protagonizou uma das manobras mais marcantes da corrida ao atacar Eddie Irvine na Loews. O irlandês fechou a porta de maneira agressiva, houve toque entre os carros, mas o francês conseguiu completar a ultrapassagem e assumiu o terceiro lugar. Pouco depois, a corrida virou completamente.
Na volta 40, o motor Renault de Hill explodiu no túnel quando liderava com mais de 25s de vantagem. O abandono do britânico abriu caminho para Alesi assumir a ponta e colocou Panis definitivamente na briga pela vitória. Só que o drama ainda não havia terminado.
No giro seguinte, Panis passou pela enorme mancha de óleo deixada pela Williams e quase rodou na chicane do porto. O francês, porém, conseguiu controlar a Ligier e evitou bater no muro. Coulthard se aproximou imediatamente, mas Panis voltou a abrir vantagem.

Alesi parecia ter a vitória nas mãos até a volta 60, quando um problema na suspensão traseira da Benetton obrigou o francês a parar nos boxes. De repente, Panis herdava a liderança do GP de Mônaco. A Ligier mal conseguia acreditar.
Restavam poucos carros na pista. A corrida seguia em direção ao limite de duas horas, enquanto novas gotas de chuva começavam a cair em Monte Carlo. Coulthard pressionava forte, mas ficou preso atrás de retardatários e depois recebeu ordem da McLaren para garantir o resultado sem assumir riscos excessivos.
Na volta 71, mais um acidente tirou Häkkinen, Irvine e Mika Salo de uma só vez. Restaram apenas quatro carros em condições de continuar. Em um distante quarto lugar e sem chances reais de buscar um lugar ao pódio, Heinz-Harald Frentzen decidiu recolher aos boxes instantes antes do limite de duas horas, deixando apenas três pilotos na pista para o que seria a última volta.
Quando o relógio atingiu a duração máxima, a direção encerrou oficialmente a corrida. Panis cruzou a linha de chegada 5s à frente de Coulthard e conquistou vitória histórica e improvável nas ruas de Monte Carlo. Johnny Herbert foi o terceiro e último a receber a bandeira quadriculada, completando o pódio para a Sauber.

A vitória teve peso enorme para a Ligier. A equipe francesa não triunfava desde o GP do Canadá de 1981, com Jacques Laffite. O próprio francês estava no pit-wall naquele domingo e celebrou emocionado o resultado. Panis saiu eternizado.
Até hoje, o francês é lembrado como um dos vencedores mais improváveis da história da Fórmula 1. E embora tenha se beneficiado do caos, a atuação foi muito além da sorte: fez ultrapassagens na pista, administrou a pressão de Coulthard nas voltas finais e guiou de maneira impecável em condições extremamente difíceis.
O triunfo em Mônaco acabou sendo o único da carreira de Panis. Também foi a última vitória da Ligier antes de a equipe se transformar na Prost GP anos depois. Três décadas depois, segue como uma das corridas mais lendárias, insanas e imprevisíveis já produzidas pela Fórmula 1.
A Fórmula 1 volta neste fim de semana, de 22 a 24 de maio, com o GP do Canadá, quinta etapa da temporada 2026. O GRANDE PRÊMIO acompanha todas as atividades AO VIVO E EM TEMPO REAL, além de classificações e corridas em SEGUNDA TELA no YouTube, em parceria com a Voz do Esporte. O Briefing chega para analisar após o fim de cada dia de atividades nas redes sociais e na GPTV.
GP do Canadá de F1: veja os horários em Brasil, Cabo Verde, Portugal, Angola e Moçambique
| Sessão | BRA* | CBV | POR ANG | MOZ |
| Treino livre 1 | 13:30 | 15:30 | 17:30 | 18:30 |
| Classificação Sprint | 17:30 | 19:30 | 21:30 | 22:30 |
| Corrida Sprint | 13:00 | 15:00 | 17:00 | 18:00 |
| Classificação | 17:00 | 19:00 | 21:00 | 22:00 |
| Corrida | 17:00 | 19:00 | 21:00 | 22:00 |
*Horário de Brasília
▶️ Inscreva-se nos dois canais do GRANDE PRÊMIO no YouTube: GP | GPTV
F1 hoje: saiba aqui as notícias mais importantes do dia da Fórmula 1
A redação do GRANDE PRÊMIO selecionou as notícias mais importantes das últimas horas para você ficar por dentro de tudo que acontece na F1.
▶️ Associação de strippers de Montreal planeja greve durante GP do Canadá de F1
▶️ Haas aposta em atualizações no GP do Canadá e fixa meta: “Lutar por top-10”
▶️ Mercedes veta Antonelli de correr em Nürburgring e brinca: “Só depois de 4 títulos”
▶️ McLaren se diz “encorajada” com atualizações para GP do Canadá após evolução em Miami
▶️ Ford explica motivo e reforça que “adoraria” retorno dos motores V8 à Fórmula 1
O post Na Garagem: Panis supera pandemônio e vence GP de Mônaco com apenas 3 sobreviventes apareceu primeiro em Grande Prêmio.
Fonte original: Grande Prêmio